FARMÁCIA
No início do século XIX, na falta de farmacêutico e botica, a compra de parte dos medicamentos era feita na Vila da Horta, onde Francisco José Paraíso “boticário examinado” se estabeleceu com “botica pública” (In “Memorando da compra de medicamentos datado de 5 de Abril de 1806” feita pelo facultativo Francisco José da Silveira. Arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Vila das Velas).
Contudo, “o primeiro estabelecimento desta ordem que se levanta nesta ilha” de São Jorge, ocorreu a meados de Julho de 1888, quando José Lemos “abriu uma drogaria nesta vila” com “uma grande variedade de medicamentos”, situada na Rua Direita, nº 2, em Velas (In “O Respigador”, nº 1, de 5 de Julho de 1888)
Esta notícia é, porém, contraditada por uma outra de «O Velense” ao escrever que “no dia primeiro do corrente principiou a funcionar a farmácia do sr. Francisco de Paula e Silva”, dando no número anterior notícia da sua vinda da ilha Graciosa, onde se encontrava estabelecido como farmacêutico e que fora “transferido para idêntico lugar, nesta vila” (In “O Velense”, nº 115, de 8 de Setembro de 1884).
Porém, em 25 de Junho de 1918 a Viscondessa de São Mateus enviou um ofício ao Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Vila das Velas comunicando “que se encontram na Urzelina, à disposição da Mesa da Santa Casa da Misericórdia desta Vila, os frascos e mais utensílios necessários para a montagem de uma farmácia, como já tive ocasião de comunicar a V. Ex.ª”, mas alertando para que, “se até ao dia 31 de Março do ano próximo futuro de 1919, não estiver criada e a funcionar a referida farmácia, reservo-me o direito de dar a esses frascos e utensílios o destino que entender”.
Na Assembleia Geral realizada na data aprazada, estando apenas presentes vinte «irmãos» da Instituição, o Provedor António Bento de Jesus referiu a doação feita pela Viscondessa de São Mateus através do citado ofício de 25 de Junho do ano anterior e alegou que a referida doação havia sido feita “em nome do seu filho [da Viscondessa] o senhor Miguel Teixeira Soares de Sousa”.
Por deliberação dos irmãos presentes “foi aprovada por unanimidade a proposta feita da montagem da farmácia e criação do respectivo lugar de farmacêutico, ficando a mesa autorizada a tornar efectiva esta resolução”.
Na reunião ocorrida no dia 30 de Setembro de 1919 foi comunicado pelo senhor Provedor “que tinha recebido a quantia de 400$00 escudos proveniente de ofertas exclusivamente destinadas à instalação da farmácia desta Santa Casa e aquisição de medicamentos” As ofertas foram dadas pela Viscondessa de São Mateus e Dr. Trajano Baptista Pereira (100$00 cada), Aires da Silveira e João Eutímio Bettencourt (25$00 cada), padre João José de Sousa Bettencourt e António Fernando Loureiro (20$00 cada), padres Vital Miguel Bettencourt e José Silveira Goulart, Francisco Loureiro, Adolfo Ribeiro, Dr. José Emílio Augusto, António da Silva Petiz, Francisco Silveira Goulart e José Soares Garcia (10$00 cada), Joaquim Bettencourt Barcelos (7$50) e o provedor António Bento de Jesus (22$50).
Foi nomeado Heitor Proença Ferreira como o primeiro farmacêutico da Farmácia da Santa Casa da Misericórdia da Vila das Velas que chegou a esta ilha “no vapor São Miguel do mês de Agosto” que, logo chegado, “dera começo a instalação da farmácia no dia 1º do corrente [Setembro] começando a vencer naquele dia” (Acta da Sessão extraordinária do dia 30 de Setembro de 1919, Livro de Actas relativo aos anos de 1907 a 1928).
Esteve a Farmácia, por muitos anos, instalada gratuitamente numa loja e anexo, no Canto de Santo André, de que era proprietário o senhor Fernando Ávila. Em 1929, tendo esta farmácia já alguns rendimentos passou a pagar de renda a quantia de 80$00 mensais, cujo valor se manteve até Abril de 1958, passando então para 180$00 mensais durante esse ano e, no início do seguinte, subindo para 200$00. Foi aumentada em Julho de 1965 para 400$00 mensais - altura em que já estava “absolutamente assente a transferência da Farmácia para o edifício hospitalar, o que se realizará dentro de um período relativamente curto, dado o adiantamento das obras aí em curso” (Acta da Mesa Administrativa, nº 50, de 7 de Julho de 1965).
Transferida para o edifício da Santa Casa da Misericórdia, onde funcionava o Hospital, e, enquanto se fizeram as obras no actual edifício, na zona onde hoje se encontram os serviços administrativos da Santa Casa, na Rua Dr. Miguel Teixeira.
As obras de construção do actual edifício foram adjudicadas em 12 de Janeiro de 1984, e as novas instalações inauguradas no dia 22 de Fevereiro de 1986.
Por outro lado, em reunião do dia 26 de Março de 1998, “foi tomada a decisão de se proceder às últimas pinturas e acabamentos, relativos à Casa da Urzelina, tendo sido acordado a inauguração do Posto de Medicamentos, sito na referida Casa, agendado para o dia 18 de Abril do corrente ano, fazendo parte dessa inauguração, uma homenagem ao Benemérito, senhor Doutor Armando Narciso, tendo para isso a Mesa decidido convidar o casal representante da família”.
Nota - Uma certa falta de rigor histórico por parte da Provedoria fez que se homenageasse uma figura que, independentemente da sua projecção nacional que em muito contribuiu para a divulgação e grandeza da ilha de S. Jorge em geral e da Urzelina, em particular, não foi a doadora do referido edifício já que a doação de tal foi feita por testamento de seu pai, Manuel Augusto Narciso, e cujo usufruto ficou destinado à irmã daquele médico, Adriana Cunha Narciso de Figueiredo, que, ao morrer sem descendência, passaram para a Santa Casa da Misericórdia das Velas, para a Fábrica da Igreja da Urzelina e para a Casa de Repouso «João Inácio de Sousa». A parte desta herança pertencente aos outros dois beneficiados foi, posteriormente adquirida pela Misericórdia.